quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Midnight in Paris (2011), Woody Allen


Matisse. Gauguin. Monet. Picasso. Man Ray. Miró. Faulkner. Buñuel. Dalí. Além de Hemingway e os Fitzgerald, são alguns dos referenciados e presentes na nova história de Woody Allen, que concorre, entre outras, as categorias de melhor roteiro original e melhor filme no Oscar 2012.


Qualquer semelhança com as outras infinitas obras de Allen é mera coincidência: é impressionante como ele mantém a mesma fórmula para todos os filmes e, apesar disso, cada filme tem sua individualidade, sua característica que certamente será marcante. O elenco, fenômeno à parte, também impressiona. Temos a sempre ótima Marion Cottilard no papel de Adriana, amante de Pablo Picasso; Owen Wilson como escritor e também protagonista, ainda conta com Kathy Bates no papel de Gertrude Stein, além de Rachel McAdams como a futura esposa do protagonista, Inez; e o vencedor do Oscar Adrien Brody, na pele de Salvador Dalí. Já da celebridade e primeira-dama francesa, Carla Bruni, eu esperava mais: não inspira confiança em nenhuma de suas falas; aqui, ela é apenas um guia do museu – o Rodin - visitado pelos protagonistas, três ou mais discretas aparições. E até foi elogiada pelo próprio diretor pela sua atuação “natural e perfeita”.



Com belíssimas imagens da capital francesa, como já era de se esperar, Paris é mais uma perfeita personagem nessa história simples e até mesmo cativante.

Gil Pander, um escritor de scripts para Hollywood decide escrever seu primeiro romance e dedicar-se mais à literatura, então viaja para Paris na intenção de apenas visitá-la. Inseguro quanto ao romance, ele precisa de uma opinião a respeito do que escrevera.

Na bela noite parisiense, já com a noiva e um casal de amigos, Gil decide não ir a um salão de dança com eles e os deixa ir, passeando pelas ruas de Paris, até que se perde. Então, à meia-noite, quando tocam os sinos, aparece um misterioso carro e leva o protagonista numa viagem ao tempo, direto para o casal Fitzgerald, Picasso e o mais próximo Ernest Hemingway. Todos seus ídolos de longa data. Uma verdadeira volta aos tempos dourados de Paris - os anos 20 -, que ainda contaria, posteriormente, com Dalí e Buñuel. 



Nota-se tudo que uma obra de Woody Allen possui: crise existencialista, o romantismo, os personagens neuróticos e tudo mais.
Adriana (Cotillard) será a tutora de Gil durante as voltas por Paris, trazendo ainda mais o protagonista para dentro de uma época a qual ele não pertence. Interessante o modo como durante todo o tempo em que estava nos anos 20 o personagem mergulhava de vez na sua fantasia, o modo com que se sentia à vontade e livre das crises dos dias atuais, vivendo apenas de passagem em sua realidade. Então rapidamente ele se encontra dividido entre a facilidade de mergulhar na história para resolver problemas pessoais em detrimento de sua própria época, além de culpá-la, ou valorizar o seu tempo, ainda que este tenha seus vários conflitos, como a política com os pais da noiva e os amigos pedantes ou animados demais.

Os problemas temporais do personagem renderam ótimos momentos, como a cena em que ele dá a trama de “Anjo Exterminador” ao próprio Buñuel, a “pílula do futuro” que ele deu a Zelda Fitzgerald, além do Dalí de Adrien Brody aficionado em rinocerontes, entre muitos outros.

“Inez, you can fool me, but you cannot fool Hemingway.”
“Say hi to Trotsky.”

No final, Gil Pander decide, depois de um deus ex machina - que até achei justo -, ficar mesmo no seu tempo e discursa sobre a ilusão que seria viver no passado, porém decide também ficar em Paris. E termina com uma jovem francesa que trabalhava logo ali na capital, numa afirmação de Allen acerca do nosso tempo e sobre a mesma ilusão do passado que Pander falava. Um voto de confiança nos tempos atuais.

À época do lançamento do filme, muito se falava no suposto pedantismo de Allen devido às várias referências culturais. Na verdade, achei as referências até pouco elevadas – no melhor sentido possível - dentro do contexto do filme e em momento algum foram gratuitas, como se quisessem demonstrar apenas a intelectualidade do cineasta. Simplesmente seria impossível criar uma história com esse argumento sem fazer uso das referências, que eram vitais à obra e não soavam complicadas, ainda que direcionadas apenas a quem é conectado a arte, seja no cinema, na literatura ou pintura.

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