Matisse. Gauguin. Monet. Picasso. Man Ray. Miró. Faulkner.
Buñuel. Dalí. Além de Hemingway e os Fitzgerald, são alguns dos referenciados e
presentes na nova história de Woody Allen, que concorre, entre outras, as
categorias de melhor roteiro original e melhor filme no Oscar 2012.
Qualquer semelhança com as outras infinitas obras de Allen é
mera coincidência: é impressionante como ele mantém a mesma fórmula para todos
os filmes e, apesar disso, cada filme tem sua individualidade, sua
característica que certamente será marcante. O elenco, fenômeno à parte, também
impressiona. Temos a sempre ótima Marion Cottilard no papel de Adriana, amante
de Pablo Picasso; Owen Wilson como escritor e também protagonista, ainda conta
com Kathy Bates no papel de Gertrude Stein, além de Rachel McAdams como a futura
esposa do protagonista, Inez; e o vencedor do Oscar Adrien Brody, na pele de
Salvador Dalí. Já da celebridade e primeira-dama francesa, Carla Bruni, eu
esperava mais: não inspira confiança em nenhuma de suas falas; aqui, ela é
apenas um guia do museu – o Rodin - visitado pelos protagonistas, três ou mais discretas aparições. E até foi elogiada pelo próprio diretor pela sua
atuação “natural e perfeita”.
Com belíssimas imagens da capital francesa, como já era de
se esperar, Paris é mais uma perfeita personagem nessa história simples e até
mesmo cativante.
Gil Pander, um escritor de scripts para Hollywood decide
escrever seu primeiro romance e dedicar-se mais à literatura, então viaja para
Paris na intenção de apenas visitá-la. Inseguro quanto ao romance, ele precisa
de uma opinião a respeito do que escrevera.
Na bela noite parisiense, já com a noiva e um casal de amigos, Gil decide
não ir a um salão de dança com eles e os deixa ir, passeando pelas ruas de Paris, até
que se perde. Então, à meia-noite, quando tocam os sinos, aparece um misterioso
carro e leva o protagonista numa viagem ao tempo, direto para o casal Fitzgerald,
Picasso e o mais próximo Ernest Hemingway. Todos seus ídolos de longa data. Uma
verdadeira volta aos tempos dourados de Paris - os anos 20 -, que ainda contaria,
posteriormente, com Dalí e Buñuel.
Nota-se tudo que uma obra de Woody Allen
possui: crise existencialista, o romantismo, os personagens neuróticos e tudo mais.
Adriana (Cotillard) será a tutora de Gil durante as voltas
por Paris, trazendo ainda mais o protagonista para dentro de uma época a qual
ele não pertence. Interessante o modo como durante todo o tempo em que estava nos anos 20 o personagem mergulhava de vez na sua fantasia, o modo com que se sentia à vontade e livre das crises dos dias atuais, vivendo apenas de passagem em sua realidade. Então rapidamente ele se encontra dividido entre a facilidade de
mergulhar na história para resolver problemas pessoais em detrimento de sua
própria época, além de culpá-la, ou valorizar o seu tempo, ainda que este tenha seus vários conflitos,
como a política com os pais da noiva e os amigos pedantes ou animados demais.
Os problemas temporais do personagem renderam ótimos
momentos, como a cena em que ele dá a trama de “Anjo Exterminador” ao próprio Buñuel,
a “pílula do futuro” que ele deu a Zelda Fitzgerald, além do Dalí de Adrien Brody
aficionado em rinocerontes, entre muitos outros.
“Inez, you can fool me, but you cannot fool Hemingway.”
“Say hi to Trotsky.”
No final, Gil Pander decide, depois de um deus ex machina -
que até achei justo -, ficar mesmo no seu tempo e discursa sobre a ilusão que
seria viver no passado, porém decide também ficar em Paris. E termina com uma
jovem francesa que trabalhava logo ali na capital, numa afirmação de Allen
acerca do nosso tempo e sobre a mesma ilusão do passado que Pander falava. Um
voto de confiança nos tempos atuais.
À época do lançamento do filme, muito se falava no suposto
pedantismo de Allen devido às várias referências culturais. Na verdade, achei as
referências até pouco elevadas – no melhor sentido possível - dentro do contexto do
filme e em momento algum foram gratuitas, como se quisessem demonstrar apenas a
intelectualidade do cineasta. Simplesmente seria impossível criar uma história
com esse argumento sem fazer uso das referências, que eram vitais à obra e não
soavam complicadas, ainda que direcionadas apenas a quem é conectado a arte,
seja no cinema, na literatura ou pintura.


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